Posts de fevereiro \19\UTC 2009

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O Diário do Trema

In Diários on 19/02/2009 por lorenalara Etiquetado: , , ,

31-12-08

Caro diário, este é o último dia de minha vida tão esquecida. A partir de amanhã começa a vigorar a reforma ortográfica da lígua portuguesa e eu não mais terei motivos para cá escrever. Sinceramente, acho que esta reforma é uma grande bosta. A língua portugesa devia era diferenciar os países, provar as diferenças culturais e tudo mais. Enfim, nada posso fazer.

Sentirei falta de meus amigos. Cinqüenta, seqüência, bilíngüe, freqüente, liqüidação, seqüela, ambigüidade, lingüiça. Minha vida não foi de muitos amores nem lebranças. Poucos se lembravam de mim nas palavras. Falta eu não fazia.

Aos poucos, os que bem escrevem e conhecem a língua se despedirão de mim. Também sentirei falta destes. Vez ou outra eu aparecerei aqui e ali erroneamente, tenho certeza. É a falta de costume.

Professores de matemática com a língua presa sempre repetirão que sou ultrapassado, assim como todos os livros serão atualizados. É triste ser antigo, diário. Me tornarei a mão que fechava a pasta de dentes na fábrica onde as máquinas agora lacram tudo. Desemprego estrutural.

Sobreviverei aqui e ali por alguns anos, em textos de gente inconformada ou mal adaptada. Aproveitei esta minha última manhã na tarefa de me resguardar às páginas de um Aurélio ou Soares Amora qualquer.

Não quero ficar remoendo-me por algo que não posso modificar. Estou tranqüilo, e sei que quando der meia noite, a partida será indolor. Abraços aos professores de matemática com a língua presa.

Respeitosamente, ¨.

O trema subiu no dicionário de verbos, no topo da estante, e se jogou. Há muito ele estava morto, mas agora, às 12:01, era oficial.

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Sexta Treze

In Cotidiano on 13/02/2009 por lorenalara

Agora são 23:35. Significa que tenho apenas 25 minutos para escrever este texto. Vinte e cinco minutos antes da meia-noite.

Sim, porque hoje é sexta 13. Eu poderia muito bem escrever algum conto de terror ou falar de assombrações, zumbis. Poderia falar do Jason, de Jogos Mortais ou do Albergue.

23:37. Digitando muito devagar.

Sim, porque se for falar de assombrações e cia., esses 22 minutos não serão suficientes.

Antigamente, em dias de Sexta-feira treze, pessoas evitavam todo tipo de situação que pudesse resultar em merda.

23:40. Hoje em dia, eu diria que a coisa mudou.

Agora vai fluir.

Tenho muito mais medo de ver um homem encapuzado com uma faca no punho do que um gato preto em dias de sexta-feira treza.

Tenho muito mais medo de passar no vestibular e receber o trote do que passar sob uma escada e receber sete anos de azar numa sexta-feira treze.

Tenho muito mais medo de encontrar neonazistas do que encontrar o V de Vingança numa sexta-feira treze.

Tenho muito mais medo de ir a um salão de beleza antes de jogar futebol do que entrar num avião da Oceanic numa sexta-feira treze.

Tenho muito mais medo de entrar pro Big Bróder do que entrar numa casa mal-assombrada numa sexta-feira treze.

Tenho muito mais medo de deixar a janela aberta no Rio de Janeiro do que dar carona prum estranho numa sexta-feira treze.

Tenho muito mais medo de perder alguém por intoxicação alimentar do que morrer de intoxicação alimentar numa sexta-feira treze.

Tenho muito mais medo de clicar em algum Don’t Click do que quebrar um espelho numa sexta-feira treze.

Tenho muito mais medo de ser sequestrada, ser presa injustamente, ser baleada, ser roubada, ser torturada ou perder minha cachorra do que dizer “azar” cem vezes numa sexta-feira treze.

Aliás, eu tenho medo disso todos os dias. 23:55

Feliz sexta 13 para vocês!

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Velhos Bigodes

In Cotidiano,Histórias on 12/02/2009 por lorenalara

Há tempos ele trabalhava lá. Chegava todos os dias no mesmo horário. Sempre pontual. Tinha nome de famoso e coração de gente decente. Quando das sete horas, ia para a portaria. Todos os dias, de segunda a sexta.

Sabia o nome de muitos, fazia muito também. Buscava as bolas que fugiam, consertava goteiras, perfurava paredes, carregava cadeiras, servia lanche, abria as salas.

Estava sempre com um boné na cabeça e um bigode no rosto. Seus olhos emanavam alegria que já não mais podia se manifestar tão bem.

Religiosamente, todos os dias. Via todos os que chegavam. Cumprimentava os que o cumprimentavam. Fizesse frio, chuva, horário de verão ou o que fosse. Ele sempre estava lá.

Seu caminhar era lento, leve. O rosto magro e cheio de rugas de quem já vivera muito. Estava sempre disposto a fazer o que fosse necessário. Suas mãos eram antigas, mas eram hábeis. A idade nunca o banira de manejar furadeiras ou garrafas.

Naquele dia, eu quase cheguei tarde demais para vê-lo. Mas ele estava lá, sentado no banco de madeira envernizado. Com seu boné e as pernas cruzadas.

Durante a vida toda servira àquelas crianças. Àqueles jovens. Àquela escola. Tinha respeito e carinho por todos, e quase sempre aquilo era recíproco.

Desci do carro, subi o degrau, cuprimentei-o. Ele respondeu.

Mais tarde, soube que ele havia decidido ir embora. E foi. Mas tenho certeza de que não será esquecido tão facilmente por todos que ali o viam a cada dia.
Dedicado ao Seu Jesus, o primeiro a me cumprimentar naquele dia.

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Dèjá Vu?

In Uncategorized on 10/02/2009 por lorenalara

Taí, meus caros leitores. Taí a prova de que a blogosfera é boboca. Ronald Rios, o Faustão morro.

Um belo dia, dois amigos homossexuais cariocas resolveram se juntar e criar uma produtora amadora de vídeos. Seria a Badalhoca Pictures.

Depois do sucesso do famigerado Você devia Jogar Basquete (You Should Play Basketball), eles criaram um programa que fez sucesso. Fez tanto sucesso que já ultrapassou o Big Brother no quesito numérico. E no quesito qualidade. E no quesito humor. E no quesito “cota negra importante que tem partipicação mas que não aparece muito”. Sob a direção de Erik Gustavo (tenho um amigo bi que quer conhecê-lo), esta já é a 11ª edição do “Com a Palavra, Ronald Rios”. Para ter uma idéia da marra dos caras, eles já estão na MTV. O que não significa muita coisa, convenhamos…

Enjoy!

Ah! Erik, este é um Post Pago a Cobrar.

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A História de Seu Marcelo

In Histórias on 08/02/2009 por lorenalara

Seu Marcelo era um velhote de 63 anos de idade. E lá estava ele. Na agência lotérica. Iria pagar as contas e apostar na Mega Sena, como fazia todo mês. Seu Marcelo era um ser humano incomum. Aprendera a aceitar todas as dificuldades que a vida havia lhe imposto, e a vencê-las. Ele havia perdido um dedo, os movimentos do pé esquerdo. Seu Marcelo, certa vez, na florescência de seus jovens anos, fora pegar o metrô e se esquecera do vão entre o trem e  plataforma. Ah, que cicatriz aquilo causara. Seu Marcelo havia perdido o filho durante o parto. Neste dia, ele também perdera a esposa. Sim, porque ela nunca se perdoara pela suposta culpa de ter causado a morte do filho. Sua esposa nunca fora a mesma, desde então. Vivia reclusa em casa, silenciosa e dona de um olhar triste. Nada além disso. O filho que haviam perdido era um menino, iria se chamar Pedro.

Seu Marcelo aprendera a escrever com os dedos restantes e nunca realmente necessitou dos movimentos do pé esquerdo. A cicatriz estava sempre debaixo da calça. Ele continuava amando a mulher como sempre. A falta do filho era compensada pelas visitas diárias de Seu Marcelo ao parquinho do bairro. Ele adorava ver as crianças e vendê-las algodão doce. Seu Marcelo não trabalhava, ele ia ver as crianças. Era assim que dizia para sua esposa:

-Querida, vou ver as crianças.

Ela nunca respondia. Simplesmente continuava olhando para a TV. Somente falava quando Seu Marcelo perguntava algo.

-Hoje teve um acidente de carro.

Nada.

-Semana que vem é o aniversário da Claudinha, vai comprar sapatos amanhã…?

-Talvez.

-Ah. Espero que ela sirva bem-casados. Aquele rapaz noivo dela parece ser bem de vida.

E a esposa já estava de volta à TV.

Seu Marcelo estava na fila há quarenta minutos e seu machucado da perna começava a doer. Certa vez, ele sofrera um derrame na perna. Mal diagnosticado pelos médicos, Seu Marcelo sentia dores religiosamente. Dores que ele suportava.

Mas Seu Marcelo nunca havia vencido uma coisa: o próprio nome. Não sabia qual havia sido a idéia desmerecedora dos pais ao escolher este nome. Numa época em que os meninos se chamavam Joaquim, Otávio, Antônio, Floriano e Franciso, ele se chamava Marcelo. Que porra de nome era aquele? Não era um nome comum. Marcelo pensava que tinha um nome de outra geração. Seria um um nome apropriado para o filho que um dia viesse a ter, por exemplo. Ora essa! Os anos se passaram, Marcelo se tornou Seu Marcelo. Sem nunca aceitar o próprio nome.

Na cartela de jogo, nosso personagem marcara as datas dos aniversários da mãe, da esposa e do filho que nunca nasceu. Depois de quinze minutos, chegou sua vez, fez o que tinha a fazer e voltou para casa.

-Oi, querida.

Nada.

-Joguei na loteria hoje. Estou com fé.

Nada.

-O que tem para o jantar?

-Está no forno.

-Obrigado.

-Nada.

O carinho de Seu Marcelo pela esposa nunca o permitira questioná-la sobre sua reclusão, de forma que nenhum dos dois sabia problema cardíaco dela. Não falo do machucado deixado pela morte do filho, mas da franqueza do coração. A esposa de Seu Marcelo nunca havia passado por grandes emoções desde o nascimento do filho morto. Não fora ao médico, não saíra a lugar algum, não fizera grandes esforços.

Depois de alguns dias, lá estavam Seu Marcelo e a esposa assistindo TV. Naquele dia, as crianças do parque haviam comprado muito algodão doce. Algumas delas haviam ferido os joelhos, nada anormal. Esse havia sido o dia do velho. O dia da velha fora insignificante.

E agora, os números da Mega Sena!

07 – 08 – 60 – 27 – 12 – 35 – 31 – 09 – 55

Seu Marcelo continuou quieto, vidrado, olhando para a TV.

Repitindo!

07 – 08 – 60 – 27 – 12 – 35 – 31 – 09 – 55

Se você for o vencedor, PARABÉNS!

Seu Marcelo se livrou do olhar vidrado. Ele havia despertado. Puxa, como aqueles números se pareciam com os que ele havia Marcado! Foi até o quarto, pegou a cartela no criado mudo, voltou até a sala.

-Querida, você se lembra dos números?

-Sim.

Seu Marcelo esperava uma resposta mais complexa. Manteve a habitual paciência.

-Quais eram?

- Sete, oito, sessenta, vinte e sete, doze, trinta e cinco, trinta e um, nove e cinquenta e cinco.
A memória da esposa nunca havia falhado antes.

-Pode repeti-los, por favor?

Mas não precisava, aqueles números coincidiam com as datas.

-Eu… nós… ganhamos. Eu acho.

E pela primeira vez em cinquenta e três anos, Seu Marcelo viu a esposa responder a uma afirmação. Com um olhar. Primeiro para ele, depois para o papel. Para ele. Suspiro. Grito de dor. Morte.

Seu Marcelo era dono de sete milhões, mas não tinha mais esposa.

No dia seguinte, Dona Eleusa já estava devidamente cremada, como rezava seu desejo. Seu Marcelo foi à lotérica e confirmou que havia ganhado.

Uma semana depois, Seu Marcelo tinha uma nova casa.

Duas semanas depois, Seu Marcelo tinha um nova prótese na mão.

Três semanas depois, Seu Marcelo tinha os movimentos do pé esquerdo.

Um mês depois, Seu Marcelo ainda tinha a cicatriz do metrô.

Três meses depois, Seu Marcelo tinha uma nova esposa, três namoradas, sete filhos, uma piscina, um Cadillac e um rapper em casa, uma boate, um restaurante, sapatos de couro, festas todos os dias, bajulação de gente importante.

Três meses e um dia depois, seu Marcelo tinha um novo nome.

Ele agora se chamava Acácio. Seus filhos se chamava Bruno, Ian, Clara, Marcelo, Eduarda, Sabrina e Mariana. Nomes da época certa.

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