Seu Marcelo era um velhote de 63 anos de idade. E lá estava ele. Na agência lotérica. Iria pagar as contas e apostar na Mega Sena, como fazia todo mês. Seu Marcelo era um ser humano incomum. Aprendera a aceitar todas as dificuldades que a vida havia lhe imposto, e a vencê-las. Ele havia perdido um dedo, os movimentos do pé esquerdo. Seu Marcelo, certa vez, na florescência de seus jovens anos, fora pegar o metrô e se esquecera do vão entre o trem e plataforma. Ah, que cicatriz aquilo causara. Seu Marcelo havia perdido o filho durante o parto. Neste dia, ele também perdera a esposa. Sim, porque ela nunca se perdoara pela suposta culpa de ter causado a morte do filho. Sua esposa nunca fora a mesma, desde então. Vivia reclusa em casa, silenciosa e dona de um olhar triste. Nada além disso. O filho que haviam perdido era um menino, iria se chamar Pedro.
Seu Marcelo aprendera a escrever com os dedos restantes e nunca realmente necessitou dos movimentos do pé esquerdo. A cicatriz estava sempre debaixo da calça. Ele continuava amando a mulher como sempre. A falta do filho era compensada pelas visitas diárias de Seu Marcelo ao parquinho do bairro. Ele adorava ver as crianças e vendê-las algodão doce. Seu Marcelo não trabalhava, ele ia ver as crianças. Era assim que dizia para sua esposa:
-Querida, vou ver as crianças.
Ela nunca respondia. Simplesmente continuava olhando para a TV. Somente falava quando Seu Marcelo perguntava algo.
-Hoje teve um acidente de carro.
Nada.
-Semana que vem é o aniversário da Claudinha, vai comprar sapatos amanhã…?
-Talvez.
-Ah. Espero que ela sirva bem-casados. Aquele rapaz noivo dela parece ser bem de vida.
E a esposa já estava de volta à TV.
Seu Marcelo estava na fila há quarenta minutos e seu machucado da perna começava a doer. Certa vez, ele sofrera um derrame na perna. Mal diagnosticado pelos médicos, Seu Marcelo sentia dores religiosamente. Dores que ele suportava.
Mas Seu Marcelo nunca havia vencido uma coisa: o próprio nome. Não sabia qual havia sido a idéia desmerecedora dos pais ao escolher este nome. Numa época em que os meninos se chamavam Joaquim, Otávio, Antônio, Floriano e Franciso, ele se chamava Marcelo. Que porra de nome era aquele? Não era um nome comum. Marcelo pensava que tinha um nome de outra geração. Seria um um nome apropriado para o filho que um dia viesse a ter, por exemplo. Ora essa! Os anos se passaram, Marcelo se tornou Seu Marcelo. Sem nunca aceitar o próprio nome.
Na cartela de jogo, nosso personagem marcara as datas dos aniversários da mãe, da esposa e do filho que nunca nasceu. Depois de quinze minutos, chegou sua vez, fez o que tinha a fazer e voltou para casa.
-Oi, querida.
Nada.
-Joguei na loteria hoje. Estou com fé.
Nada.
-O que tem para o jantar?
-Está no forno.
-Obrigado.
-Nada.
O carinho de Seu Marcelo pela esposa nunca o permitira questioná-la sobre sua reclusão, de forma que nenhum dos dois sabia problema cardíaco dela. Não falo do machucado deixado pela morte do filho, mas da franqueza do coração. A esposa de Seu Marcelo nunca havia passado por grandes emoções desde o nascimento do filho morto. Não fora ao médico, não saíra a lugar algum, não fizera grandes esforços.
Depois de alguns dias, lá estavam Seu Marcelo e a esposa assistindo TV. Naquele dia, as crianças do parque haviam comprado muito algodão doce. Algumas delas haviam ferido os joelhos, nada anormal. Esse havia sido o dia do velho. O dia da velha fora insignificante.
E agora, os números da Mega Sena!
07 – 08 – 60 – 27 – 12 – 35 – 31 – 09 – 55
Seu Marcelo continuou quieto, vidrado, olhando para a TV.
Repitindo!
07 – 08 – 60 – 27 – 12 – 35 – 31 – 09 – 55
Se você for o vencedor, PARABÉNS!
Seu Marcelo se livrou do olhar vidrado. Ele havia despertado. Puxa, como aqueles números se pareciam com os que ele havia Marcado! Foi até o quarto, pegou a cartela no criado mudo, voltou até a sala.
-Querida, você se lembra dos números?
-Sim.
Seu Marcelo esperava uma resposta mais complexa. Manteve a habitual paciência.
-Quais eram?
- Sete, oito, sessenta, vinte e sete, doze, trinta e cinco, trinta e um, nove e cinquenta e cinco.
A memória da esposa nunca havia falhado antes.
-Pode repeti-los, por favor?
Mas não precisava, aqueles números coincidiam com as datas.
-Eu… nós… ganhamos. Eu acho.
E pela primeira vez em cinquenta e três anos, Seu Marcelo viu a esposa responder a uma afirmação. Com um olhar. Primeiro para ele, depois para o papel. Para ele. Suspiro. Grito de dor. Morte.
Seu Marcelo era dono de sete milhões, mas não tinha mais esposa.
No dia seguinte, Dona Eleusa já estava devidamente cremada, como rezava seu desejo. Seu Marcelo foi à lotérica e confirmou que havia ganhado.
Uma semana depois, Seu Marcelo tinha uma nova casa.
Duas semanas depois, Seu Marcelo tinha um nova prótese na mão.
Três semanas depois, Seu Marcelo tinha os movimentos do pé esquerdo.
Um mês depois, Seu Marcelo ainda tinha a cicatriz do metrô.
Três meses depois, Seu Marcelo tinha uma nova esposa, três namoradas, sete filhos, uma piscina, um Cadillac e um rapper em casa, uma boate, um restaurante, sapatos de couro, festas todos os dias, bajulação de gente importante.

Três meses e um dia depois, seu Marcelo tinha um novo nome.
Ele agora se chamava Acácio. Seus filhos se chamava Bruno, Ian, Clara, Marcelo, Eduarda, Sabrina e Mariana. Nomes da época certa.