31-12-08
Caro diário, este é o último dia de minha vida tão esquecida. A partir de amanhã começa a vigorar a reforma ortográfica da lígua portuguesa e eu não mais terei motivos para cá escrever. Sinceramente, acho que esta reforma é uma grande bosta. A língua portugesa devia era diferenciar os países, provar as diferenças culturais e tudo mais. Enfim, nada posso fazer.
Sentirei falta de meus amigos. Cinqüenta, seqüência, bilíngüe, freqüente, liqüidação, seqüela, ambigüidade, lingüiça. Minha vida não foi de muitos amores nem lebranças. Poucos se lembravam de mim nas palavras. Falta eu não fazia.
Aos poucos, os que bem escrevem e conhecem a língua se despedirão de mim. Também sentirei falta destes. Vez ou outra eu aparecerei aqui e ali erroneamente, tenho certeza. É a falta de costume.
Professores de matemática com a língua presa sempre repetirão que sou ultrapassado, assim como todos os livros serão atualizados. É triste ser antigo, diário. Me tornarei a mão que fechava a pasta de dentes na fábrica onde as máquinas agora lacram tudo. Desemprego estrutural.
Sobreviverei aqui e ali por alguns anos, em textos de gente inconformada ou mal adaptada. Aproveitei esta minha última manhã na tarefa de me resguardar às páginas de um Aurélio ou Soares Amora qualquer.
Não quero ficar remoendo-me por algo que não posso modificar. Estou tranqüilo, e sei que quando der meia noite, a partida será indolor. Abraços aos professores de matemática com a língua presa.
Respeitosamente, ¨.
O trema subiu no dicionário de verbos, no topo da estante, e se jogou. Há muito ele estava morto, mas agora, às 12:01, era oficial.











E lá estava a Clara, a menina tímida. Eram dez horas da manhã e ela escrevia em seu diário. Sentada de frente à janela, o Sol entrava metido. Clara escrevia: