Arquivo da categoria ‘Histórias’

Post

Velhos Bigodes

In Cotidiano,Histórias on 12/02/2009 por lorenalara

Há tempos ele trabalhava lá. Chegava todos os dias no mesmo horário. Sempre pontual. Tinha nome de famoso e coração de gente decente. Quando das sete horas, ia para a portaria. Todos os dias, de segunda a sexta.

Sabia o nome de muitos, fazia muito também. Buscava as bolas que fugiam, consertava goteiras, perfurava paredes, carregava cadeiras, servia lanche, abria as salas.

Estava sempre com um boné na cabeça e um bigode no rosto. Seus olhos emanavam alegria que já não mais podia se manifestar tão bem.

Religiosamente, todos os dias. Via todos os que chegavam. Cumprimentava os que o cumprimentavam. Fizesse frio, chuva, horário de verão ou o que fosse. Ele sempre estava lá.

Seu caminhar era lento, leve. O rosto magro e cheio de rugas de quem já vivera muito. Estava sempre disposto a fazer o que fosse necessário. Suas mãos eram antigas, mas eram hábeis. A idade nunca o banira de manejar furadeiras ou garrafas.

Naquele dia, eu quase cheguei tarde demais para vê-lo. Mas ele estava lá, sentado no banco de madeira envernizado. Com seu boné e as pernas cruzadas.

Durante a vida toda servira àquelas crianças. Àqueles jovens. Àquela escola. Tinha respeito e carinho por todos, e quase sempre aquilo era recíproco.

Desci do carro, subi o degrau, cuprimentei-o. Ele respondeu.

Mais tarde, soube que ele havia decidido ir embora. E foi. Mas tenho certeza de que não será esquecido tão facilmente por todos que ali o viam a cada dia.
Dedicado ao Seu Jesus, o primeiro a me cumprimentar naquele dia.

Post

A História de Seu Marcelo

In Histórias on 08/02/2009 por lorenalara

Seu Marcelo era um velhote de 63 anos de idade. E lá estava ele. Na agência lotérica. Iria pagar as contas e apostar na Mega Sena, como fazia todo mês. Seu Marcelo era um ser humano incomum. Aprendera a aceitar todas as dificuldades que a vida havia lhe imposto, e a vencê-las. Ele havia perdido um dedo, os movimentos do pé esquerdo. Seu Marcelo, certa vez, na florescência de seus jovens anos, fora pegar o metrô e se esquecera do vão entre o trem e  plataforma. Ah, que cicatriz aquilo causara. Seu Marcelo havia perdido o filho durante o parto. Neste dia, ele também perdera a esposa. Sim, porque ela nunca se perdoara pela suposta culpa de ter causado a morte do filho. Sua esposa nunca fora a mesma, desde então. Vivia reclusa em casa, silenciosa e dona de um olhar triste. Nada além disso. O filho que haviam perdido era um menino, iria se chamar Pedro.

Seu Marcelo aprendera a escrever com os dedos restantes e nunca realmente necessitou dos movimentos do pé esquerdo. A cicatriz estava sempre debaixo da calça. Ele continuava amando a mulher como sempre. A falta do filho era compensada pelas visitas diárias de Seu Marcelo ao parquinho do bairro. Ele adorava ver as crianças e vendê-las algodão doce. Seu Marcelo não trabalhava, ele ia ver as crianças. Era assim que dizia para sua esposa:

-Querida, vou ver as crianças.

Ela nunca respondia. Simplesmente continuava olhando para a TV. Somente falava quando Seu Marcelo perguntava algo.

-Hoje teve um acidente de carro.

Nada.

-Semana que vem é o aniversário da Claudinha, vai comprar sapatos amanhã…?

-Talvez.

-Ah. Espero que ela sirva bem-casados. Aquele rapaz noivo dela parece ser bem de vida.

E a esposa já estava de volta à TV.

Seu Marcelo estava na fila há quarenta minutos e seu machucado da perna começava a doer. Certa vez, ele sofrera um derrame na perna. Mal diagnosticado pelos médicos, Seu Marcelo sentia dores religiosamente. Dores que ele suportava.

Mas Seu Marcelo nunca havia vencido uma coisa: o próprio nome. Não sabia qual havia sido a idéia desmerecedora dos pais ao escolher este nome. Numa época em que os meninos se chamavam Joaquim, Otávio, Antônio, Floriano e Franciso, ele se chamava Marcelo. Que porra de nome era aquele? Não era um nome comum. Marcelo pensava que tinha um nome de outra geração. Seria um um nome apropriado para o filho que um dia viesse a ter, por exemplo. Ora essa! Os anos se passaram, Marcelo se tornou Seu Marcelo. Sem nunca aceitar o próprio nome.

Na cartela de jogo, nosso personagem marcara as datas dos aniversários da mãe, da esposa e do filho que nunca nasceu. Depois de quinze minutos, chegou sua vez, fez o que tinha a fazer e voltou para casa.

-Oi, querida.

Nada.

-Joguei na loteria hoje. Estou com fé.

Nada.

-O que tem para o jantar?

-Está no forno.

-Obrigado.

-Nada.

O carinho de Seu Marcelo pela esposa nunca o permitira questioná-la sobre sua reclusão, de forma que nenhum dos dois sabia problema cardíaco dela. Não falo do machucado deixado pela morte do filho, mas da franqueza do coração. A esposa de Seu Marcelo nunca havia passado por grandes emoções desde o nascimento do filho morto. Não fora ao médico, não saíra a lugar algum, não fizera grandes esforços.

Depois de alguns dias, lá estavam Seu Marcelo e a esposa assistindo TV. Naquele dia, as crianças do parque haviam comprado muito algodão doce. Algumas delas haviam ferido os joelhos, nada anormal. Esse havia sido o dia do velho. O dia da velha fora insignificante.

E agora, os números da Mega Sena!

07 – 08 – 60 – 27 – 12 – 35 – 31 – 09 – 55

Seu Marcelo continuou quieto, vidrado, olhando para a TV.

Repitindo!

07 – 08 – 60 – 27 – 12 – 35 – 31 – 09 – 55

Se você for o vencedor, PARABÉNS!

Seu Marcelo se livrou do olhar vidrado. Ele havia despertado. Puxa, como aqueles números se pareciam com os que ele havia Marcado! Foi até o quarto, pegou a cartela no criado mudo, voltou até a sala.

-Querida, você se lembra dos números?

-Sim.

Seu Marcelo esperava uma resposta mais complexa. Manteve a habitual paciência.

-Quais eram?

- Sete, oito, sessenta, vinte e sete, doze, trinta e cinco, trinta e um, nove e cinquenta e cinco.
A memória da esposa nunca havia falhado antes.

-Pode repeti-los, por favor?

Mas não precisava, aqueles números coincidiam com as datas.

-Eu… nós… ganhamos. Eu acho.

E pela primeira vez em cinquenta e três anos, Seu Marcelo viu a esposa responder a uma afirmação. Com um olhar. Primeiro para ele, depois para o papel. Para ele. Suspiro. Grito de dor. Morte.

Seu Marcelo era dono de sete milhões, mas não tinha mais esposa.

No dia seguinte, Dona Eleusa já estava devidamente cremada, como rezava seu desejo. Seu Marcelo foi à lotérica e confirmou que havia ganhado.

Uma semana depois, Seu Marcelo tinha uma nova casa.

Duas semanas depois, Seu Marcelo tinha um nova prótese na mão.

Três semanas depois, Seu Marcelo tinha os movimentos do pé esquerdo.

Um mês depois, Seu Marcelo ainda tinha a cicatriz do metrô.

Três meses depois, Seu Marcelo tinha uma nova esposa, três namoradas, sete filhos, uma piscina, um Cadillac e um rapper em casa, uma boate, um restaurante, sapatos de couro, festas todos os dias, bajulação de gente importante.

Três meses e um dia depois, seu Marcelo tinha um novo nome.

Ele agora se chamava Acácio. Seus filhos se chamava Bruno, Ian, Clara, Marcelo, Eduarda, Sabrina e Mariana. Nomes da época certa.

Post

Você sabe?

In Histórias on 04/02/2009 por lorenalara

Você olha pela janela e tudo o que vê são prédios. O céu perdeu a cor, o ar perdeu o cheiro inexistente. O parapeito ficou cinza, o sal do mar fez com que sua casa precisasse de uma nova pintura.

Você olha pela janela e tudo o que vê é pasto. O céu perdeu o tom acinzentado, o ar perdeu o cheio de poluição, que nunca existiu. O parapeito ficou cheio de flores, a chuva e o vento fizeram com que sua casa precisasse de uma nova pintura.

Lá, fora, barulhos, ruídos, onomatopéias audíveis, conversas descartáveis, buzinas raivosas, apitos incessantes, ecos indistinguíveis. Mas você não os ouve. Você tem um fone nos ouvidos.

Lá fora, o som do vento, o canto dos pássaros, conversas das raízes, chuva atlética, rio tagarela, ecos distinguíveis. E você os ouve. Você tem toda a atenção do mundo.

Em sua cabeça, de tudo há: literatura arcaica, lançamentos de cinema, multas de motocicleta, documentos a serem entregues, restaurantes a se visitar, parques para encontrar tranquilidade, shoppings para encontrar tumulto e sacolas.

Em sua cabeça, de tudo há: quando chega a estação dos morangos, se a chuva chega em um ou dois minutos, se as tortas já estão no ponto, se o milho já cozinhou, árvores a se visitar, frutas a se colher, caçadas para encontrar adrenalina, sua cama para poder sonhar.

Você vai sair de casa, vai ligar o computador, vai ligar seu carro, vai recarregar seu celular, vai preparar miojo, vai se embebedar no galpão, vai matar alguém, vai pro hospital, vai mandar um e-mail, vai deletar um spam.

Você vai sair de casa, vai calçar as botas, vai até o pomar, vai colher alface na horta orgânica, vai terminar as tortas, vai preparar miojo, vai matar um urubu, vai alimentar os pássaros.

Onde você está? You are lost.

Post

A saga de João Augusto – Parte III

In Histórias on 27/01/2009 por lorenalara Etiquetado: , , , ,

João procurou sentar-se num lugar afastado dos estranhos jovens, mas não havia como: o ônibus encontrava-se lotado. Oh, que triste viagem seria.

Jota Augusto lembrou-se de quando era criança e de como sofria nos ônibus escolares. Ah, ele era um pobre coitado, menino encolhido, magrelo, feioso. Carregava o lanche que mamãe lhe preparava religiosamente todos os dias, e não raras foram as vezes que roubavam seu lanche.

João, fique assim não! Esses anos de escola já se foram. Esqueça-os! Afinal de contas, vais comprar seus discos! Já pensaste em quais discos comprar, João?

Mas é claro que sim. João era esperto, ora essa! Iria comprar os discos daqueles que apareciam na TV. Daquele Latino, daquele James Blunt. James Blunt aquele que João Augusto não conseguia acompanhar cantando. Iria comprar disco daquele Wando e também daqueles Carpenters – não importava quem eram, afinal estavam na TV!

De dentro do ônibus, o sobrinho de tia Neuda via os quarteirões passarem. Os jovens que com ele entraram no ônibus não pareciam tão nocivos assim. Estavam dando risadas e falando sobre coisas que Jota Augusto desconhecia.

Depois de vários quarteirões andandos, o ônibus parava e desciam o trabalhador, o João, os jovens estranhos, a vadia, a Celine Dion e a empregada doméstica.

A felicidade de João Aumentava a cada passo. Ele finalmente gastaria seus CENTO E CINQUENTA reais! J. Augusto andou desta vez somente um, dois e três quarteirões. Chegou à loja de discos feliz e contente, escolheu os discos que queria, lembrou-se de seus oito anos de idade e do dia em que comprou os pirulitos que gostava.

Na hora de pagar, João descobriu que ainda sobrariam VINTE REAIS, mas que felicidade! Gastaria aquele troco na compra de uma suéter para padrinho Celso Antônio. João enfiou a mão no bolso para catar a carteira e… Oh!

Cadê a carteira?

Os jovens estranhos haviam roubado João. E ele nem se dera conta. João era um grande LOSER.

FIM :D

Post

A Saga de João Augusto – Parte II

In Histórias on 22/01/2009 por lorenalara Etiquetado: , , ,

Mas como a chuva poderia atrapalhar nosso herói? Molhando sua roupa, simplesmente. Porém, aquela não era a hora para desistir. João se recordou dos seus 7 anos de idade e do dia em que voltou da escola debaixo de trovões. Era uma tempestade horrenda que o deixou doente. Mas ele sobrevivera e estava ali para andar um, dois, três, quatro e cinco quarteirões, pegar sua carteira e voltar.

Desta forma, João recomeçou a caminhada, e após o terceiro quarteirão andado, um carro passou. Um carro passou rápido. Um carro passou rápido e molhou João por inteiro.

Jota Augusto realmente cogitou não mais comprar os discos. Não naquele dia.

J.A., não faça isso. Não faça isso. Você esperou meses até juntar seus CENTO E CINQUENTA reais, não desista agora.

Então, João não desistiu. Andou mais dois quarteirões, chegou em casa, deu beijinho em mamãe, disse “Eu esqueci a carteira e me molhei. Vim pegar a carteira e me trocar”. João se trocou, mas as roupas que agora usava não eram tão graciosas como a camisa de tia Neuda, os sapatos de papai e o cinto de Natal. João agora vestia um moletom azul feioso e chinelos.

João saiu do quarto, deu beijinho em mamãe, disse “Estou voltando”. Mamãe perguntou “Tem a carteira contigo?”, e João percebeu que novamente esquecera o dinheiro. Voltou ao quarto e catou o que faltava.

A chuva havia parado de cair. Ainda bem, disse ele. Agusto caminhou um, dois, três, quatro e cinco quarteirões.

Mas que sorte, João! O ônibus já vem vindo! Olha lá!

Ele ficou feliz e contente, mas quando o ônibus passou direto, o sorriso se foi. Não muito tempo depois, o ônibus chegara. Porém, ao lado de Jota Augusto estavam sete jovens estranhos: duas meninas, três meninos e dois homossexuais. E eles entraram no ônibus junto com João.

Continua :D

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.