Caro Diário,
Me sinto infeliz. É como se minha boca estivesse azeda. Não suporto mais. Minhas cordas estão desafinadas, não há nada que as cure. É como um câncer. Não, pior. É como AIDS, que vai piorcando a cada dia. Não posso mais viver assim.
Não consigo nenhum sustenido, nenhum bemol. Minhas tarrachas estão todas enferrujadas, estou rouco. Não posso viver assim, sem música decente. Não posso.
Sabe aquela que todo violonista toca? Aquela Anna Júlia? Não posso mais. Não consigo mudar de tom, meu vibrato não dá certo. Fico encostado no canto da parede como um mero objeto decorativo. Merda de vida.
Acho que vou fazer o último sol da vida. Meu dono chega daqui a pouco. Vou arrebentar uma de minhas cordas, assim ele me joga fora logo.

O menino Jimmy chegava da escola. Foi para o quarto e, ao abrir a porta, deparou-se com seu violão num estado crítico.
E Jimmy viu-se frente a duas terríveis opções: gastaria o dinheiro que estava economizando em um novo violão, ao invés da tão sonhada guitarra? Ou daria um jeito naquele instrumento que fora de seu pai e que fora seu também?
Não, Jimmy o tinha no coração. O violão estava com ele desde o início. O ensinara os acordes, os atalhos, as notas, os efeitos. Aquele velho parceiro ganharia novas cordas, tarrachas, uma boa limpeza e polimento. Estaria novamente em folha para poder acompanhá-lo por muito mais tempo.
Jimmy Hendrix pegou o velho violão em mãos e saiu com ele do quarto. Visitariam uma lojinha de música do bairro.










